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Como o Google descobre que a sua empresa é uma coisa, e não um nome
por Daniel Sócrates publicado em
Existem pelo menos quatro empresas chamadas Atlas no Brasil. Uma faz ventilador, outra é corretora, outra é escola de idiomas, outra é oficina.
Quando alguém digita Atlas, o buscador precisa escolher. Ele não escolhe pelo nome, porque o nome é igual nos quatro casos.
O que ele faz é outra coisa, e essa coisa tem data de nascimento.
O nome da sua empresa, para a máquina, é uma sequência de letras
Em 16 de maio de 2012, Amit Singhal publicou no blog do Google um texto com um título que já dizia tudo: “Introducing the Knowledge Graph: things, not strings”. Coisas, não sequências de letras. 1
O anúncio veio com dois números. Mais de 500 milhões de objetos catalogados, e mais de 3,5 bilhões de fatos e relações entre eles. 1
Um objeto, ali, é uma coisa do mundo. Uma empresa, uma pessoa, um lugar, um produto. Cada uma
recebe um identificador de máquina próprio, herdado de um sistema anterior e exposto hoje no
formato kg:. 2
É esse identificador que separa as quatro Atlas. Elas têm o mesmo nome e códigos diferentes.
Isso se chama entidade.
O que o Google guarda sobre uma coisa
A frase de três partes
O registro não guarda parágrafos. Guarda frases curtas de três partes: sujeito, predicado, objeto. 3
A sua empresa, escrita assim, vira uma pilha de linhas. Fulana Ltda, tem sede em, Belo Horizonte. Fulana Ltda, atua em, arquitetura corporativa. Fulana Ltda, foi fundada em, 2014.
Cada linha dessas pode ser confirmada ou desmentida por uma fonte de fora. É essa possibilidade de conferência que faz a estrutura funcionar.
O catálogo original não nasceu dentro do Google. Veio da compra da Metaweb, dona de uma base chamada Freebase, anunciada em julho de 2010. Wikipédia, Wikidata e dados estruturados da web entraram depois. 4
O tamanho do registro, em dois retratos
No lançamento de 2012, eram 500 milhões de objetos e 3,5 bilhões de fatos. 1
Em 20 de maio de 2020, o Google publicou outro número: mais de 500 bilhões de fatos sobre 5 bilhões de entidades. 5
Oito anos entre um retrato e outro. Os dois são declaração oficial do Google, com data, e não estimativa de mercado.
De onde saem os fatos, e o que o Google admite sobre eles
No mesmo post de 2020, o Google descreve as fontes do registro. A frase é curta: “Wikipedia is a commonly-cited source, but it’s not the only one. We draw from hundreds of sources from across the web”. 6
Centenas de fontes. A Wikipédia é uma delas, e é citada com frequência, e não é a única.
O post admite outra coisa que raramente é citada junto: “Inaccuracies in the Knowledge Graph can occasionally happen”. Imprecisões acontecem, e existe canal de feedback nos painéis para correção. 7
Junte as duas frases e sobra uma consequência prática. Se o registro se alimenta de centenas de fontes, o que você publica sobre si mesmo é uma delas. É a que você controla, e por isso mesmo é a que pesa menos quando está sozinha.
O nome disso é reconciliação, e é o Google que chama assim
Decidir que dois registros falam da mesma coisa tem nome técnico, e o nome não é invenção de mercado.
Na documentação do Google Cloud, existe um serviço descrito como “a standalone API that wraps around the Google core entity reconciliation”. Reconciliação de entidade, com essas palavras. 8
Um limite, e ele é meu, não do documento. Aquele serviço é vendido a empresas para reconciliar bases de dados próprias. A documentação dele não descreve como a busca funciona. Uso o termo porque é o termo que o Google usa para a operação. A ponte entre o produto de nuvem e o buscador é leitura minha. 9
Reconciliar é o verbo certo para o que acontece com a sua empresa. Existem menções dela espalhadas, com grafias diferentes, endereços diferentes, às vezes fatos diferentes. Alguém precisa decidir se aquilo tudo é uma coisa só.
Três patentes, e o que elas provam de verdade
As três, com número e data
O Google patenteou mecanismos ligados a isso, e as três patentes abaixo estão concedidas, não apenas depositadas.
A US 9.477.759 B2, “Question answering using entity references in unstructured data”, foi depositada em 15 de março de 2013 e concedida em 25 de outubro de 2016. Ela descreve reconhecimento de entidade em texto livre, ou seja, sem marcação nenhuma. 10
A US 10.235.423 B2, “Ranking search results based on entity metrics”, foi depositada em 12 de dezembro de 2012 e concedida em 19 de março de 2019. 11
A US 11.328.218 B1, “Identifying subjective attributes by analysis of curation signals”, foi depositada em 2017 e concedida em 10 de maio de 2022. 12
O que uma patente concedida prova
Aqui está a parte que o mercado costuma pular.
Patente concedida passou por exame. Isso prova investimento e direção de engenharia. Não prova que o sistema está em produção, e não prova como ele funciona hoje. 13
Quem cita número de patente do Google como se fosse manual de funcionamento está fazendo uma promessa que o documento não faz.
Existe ainda uma ponte que costuma aparecer nesse assunto, entre o reconhecimento de entidade e a atualização Hummingbird, de 2013. A relação cronológica existe e a conceitual faz sentido. Nenhuma fonte primária liga os dois documentos, e por isso essa ponte entra aqui como leitura minha. 14
Duas coisas que o Google tentou e desligou
Pesquisadores do Google publicaram, em 2014, um artigo sobre um sistema chamado Knowledge Vault. Ele reuniu 1,6 bilhão de triplas, das quais 324 milhões passaram de um limiar de confiança. 15
O Knowledge Vault nunca virou produto. O próprio Google declarou isso publicamente, em agosto de 2014, depois que a imprensa tratou o artigo como anúncio. 16
O Freebase, aquele catálogo comprado em 2010, também teve fim. O encerramento foi anunciado em 16 de dezembro de 2014. A base congelou para edição em 31 de março de 2015. Site e APIs saíram do ar em 30 de junho de 2015, e os dados foram para o Wikidata. 17
Guardo essas duas histórias aqui por um motivo. Manter um registro de fatos sobre o mundo é caro, e o Google desliga o que não sustenta a escala. Quem espera encontrar um botão de cadastro está esperando o contrário do que essa história mostra.
Não existe formulário
Esta é a pergunta que mais chega, e a resposta é curta.
Não existe formulário, cadastro ou protocolo público de inclusão de entidade no Knowledge Graph. Nenhum. A ausência é fato verificável: basta procurar. 18
Existe canal para sugerir correção quando já há um painel no ar, e isso é outra coisa. Corrigir um registro que existe é diferente de criar um que não existe.
O que resta é o caminho longo, e ele é o único. Ser mencionado de forma consistente por fontes que você não controla. Com os mesmos fatos, escritos do mesmo jeito.
O seu exercício de segunda-feira
Dez minutos, sem ferramenta.
Pergunte ao ChatGPT e ao Gemini: quem é a sua empresa? Use o nome exato, sem contexto nenhum.
Anote o que voltar. Pode voltar certo, pode voltar errado, pode voltar nada. As três respostas são informação, e a terceira é a mais comum em empresa que nunca tratou disso.
Guarde o print com a data. Esse é o seu marco zero de reconhecimento, e sem ele não há como dizer depois se alguma coisa mudou.
Perguntas frequentes
Dá para cadastrar minha empresa no Knowledge Graph?
Não. Não existe formulário, cadastro ou protocolo público de inclusão. O que existe é canal de correção para painéis que já estão no ar. 18
Colocar JSON-LD no site garante entrada no grafo?
Não garante. Dados estruturados são uma declaração sua sobre você, e o registro se alimenta de centenas de fontes. A declaração ajuda a desambiguar. Sozinha, ela é a fonte mais fraca que existe sobre a sua empresa, porque é a única que você controla. 6
Se o Google erra sobre a minha empresa, dá para corrigir?
O próprio Google reconhece que imprecisões acontecem e mantém canal de feedback nos painéis. 7
As três patentes provam que o Google faz isso hoje?
Não. Patente concedida prova investimento e direção de engenharia, e não prova sistema em produção. 13
Notas e fontes
- Amit Singhal, “Introducing the Knowledge Graph: things, not strings”, blog oficial do Google, 16 de maio de 2012. Números do lançamento: mais de 500 milhões de objetos e mais de 3,5 bilhões de fatos e relações.
- Google Knowledge Graph Search API, documentação oficial. Os MIDs herdados do Freebase são expostos como IDs no formato
kg:. Duas coisas de mesmo nome recebem identificadores distintos. - Triplas de sujeito, predicado e objeto: modelo de dados padrão de grafos de conhecimento, refletido na Knowledge Graph Search API.
- Aquisição da Metaweb, dona do Freebase, anunciada pelo Google em julho de 2010. Complementos posteriores: Wikipédia, Wikidata e dados estruturados da web.
- Google, “A reintroduction to our Knowledge Graph and knowledge panels”, blog.google, 20 de maio de 2020. Declaração oficial de mais de 500 bilhões de fatos sobre 5 bilhões de entidades.
- Mesmo post de 20 de maio de 2020. Citação literal reproduzida no corpo.
- Mesmo post de 20 de maio de 2020. Citação literal reproduzida no corpo. O texto descreve sistemas automáticos de prevenção e canal de feedback nos painéis.
- Google Cloud, documentação do Enterprise Knowledge Graph e da Entity Reconciliation API. Citação literal reproduzida no corpo.
- Limite declarado: a Entity Reconciliation API é serviço vendido a empresas para reconciliar dados próprios, e a documentação não descreve o funcionamento da Busca. A ponte entre os dois é inferência do autor.
- Patente concedida US 9.477.759 B2, “Question answering using entity references in unstructured data”, Google LLC. Depósito em 15 de março de 2013, concessão em 25 de outubro de 2016.
- Patente concedida US 10.235.423 B2, “Ranking search results based on entity metrics”, Google LLC. Depósito em 12 de dezembro de 2012, concessão em 19 de março de 2019.
- Patente concedida US 11.328.218 B1, “Identifying subjective attributes by analysis of curation signals”, Google LLC. Depósito em 2017, concessão em 10 de maio de 2022.
- Régua de evidência aplicada às três patentes: todas concedidas, ou seja, passaram por exame. Concessão prova investimento e direção de engenharia, e não prova sistema em produção.
- Ponte com o Hummingbird (2013): relação cronológica e conceitual, marcada como inferência do autor. Nenhuma fonte primária liga os dois documentos.
- Dong et al. (Google), “Knowledge Vault: A Web-Scale Approach to Probabilistic Knowledge Fusion”, KDD 2014. 1,6 bilhão de triplas reunidas, 324 milhões acima do limiar de confiança citado no artigo.
- Declaração do Google de que o Knowledge Vault não era produto, publicada em postscript após cobertura de imprensa, agosto de 2014.
- Desfecho do Freebase: encerramento anunciado em 16 de dezembro de 2014, base congelada para edição em 31 de março de 2015, site e APIs aposentados em 30 de junho de 2015, com transferência dos dados para o Wikidata.
- Não existe formulário, cadastro ou protocolo público de inclusão de entidade no Knowledge Graph. A ausência é fato verificável.
Vamos ver o que a máquina entende da sua empresa
Uma conversa de diagnóstico, sem apresentação de slides. Você traz o endereço do seu site. A gente traz o que o Google e as IAs já sabem sobre ele hoje.